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ED 045
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A passagem, o almoço e o pernoite que o SUS paga a quem trata longe de casa

Paciente encaminhado para mais de 50 quilômetros tem direito a transporte e ajuda de custo, e o acompanhante entra na mesma conta.

Dois bilhetes de ônibus intermunicipal sobre a mesa, ao lado de uma pasta com o encaminhamento médico dobrado.

Os bilhetes ao lado do encaminhamento

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R$ 92 de passagem intermunicipal ida e volta, R$ 26 de almoço na rodoviária, R$ 70 de pernoite em quarto simples quando a consulta marca sete da manhã. Duas viagens por mês, com um acompanhante no assento ao lado, dão R$ 376 e chegam a R$ 4.512 no ano. Toda essa despesa pertence à secretaria de saúde, não ao bolso da família, e ainda assim ela sai do bolso da família na maioria dos casos.

O programa que paga se chama Tratamento Fora de Domicílio, o TFD, e existe desde 1999 na rede pública. Ele cobre o deslocamento do paciente do SUS que precisa tratar numa cidade diferente da onde mora, porque o procedimento indicado pelo médico não existe no município de residência.

Três despesas entram: o transporte, a alimentação e o pernoite. A consulta, o exame e a cirurgia continuam gratuitos pela porta normal do SUS, e o TFD cobre o caminho até a porta, que é justamente a parte que ninguém reembolsa e todo mundo paga.

A distância de 50 quilômetros funciona como o corte da ajuda de custo em dinheiro, e a conta dos quilômetros sai da estrada entre o município de moradia e o município de destino. Abaixo dela, o município costuma resolver com transporte sanitário próprio, a van ou o ônibus da saúde. Acima dela, a alimentação e o pernoite entram no cálculo, e o acompanhante autorizado recebe valor idêntico ao do paciente.

O benefício não cai sozinho na conta de ninguém. Ele começa num formulário preenchido pelo médico que atende, passa por uma autorização prévia na secretaria municipal de saúde e só depois vira passagem emitida e dinheiro depositado na conta do paciente ou do responsável pela família.

Quais despesas a lei manda cobrir, quem pode levar acompanhante, quanto tempo leva cada etapa do processo e como uma família de Governador Valadares transformou 214 quilômetros de estrada em zero despesa própria, é o que vem agora.

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I  O dinheiro de hoje

Transporte, almoço e pernoite entram, a consulta já era gratuita

A regra mora na Portaria SAS/MS nº 55, de 24 de fevereiro de 1999, que organizou a rotina do Tratamento Fora de Domicílio no SUS e continua valendo, hoje incorporada à Portaria de Consolidação GM/MS nº 1, de 2017.

O TFD paga passagem de ida e volta, ajuda de custo para alimentação e ajuda de custo para pernoite, ao paciente encaminhado e ao acompanhante autorizado, sempre que o tratamento indicado não estiver disponível no município onde a pessoa mora.

Fica estabelecido que o Tratamento Fora de Domicílio somente será autorizado quando esgotados todos os meios de tratamento na localidade de residência do paciente. (Portaria SAS/MS nº 55, de 24 de fevereiro de 1999, artigo 2º)

Duas palavras dessa frase decidem o deferimento: esgotados e localidade. O critério nunca é preferência pessoal por um hospital melhor, e sim a ausência do procedimento na cidade de moradia, atestada pelo médico que assina o encaminhamento.

O que a ajuda de custo cobre e o que fica de fora, pelo texto da portaria:

Transporte terrestre intermunicipalpassagem de ida e volta emitida ou reembolsada pela secretaria
Transporte aéreoautorizado em caso de urgência do quadro ou distância que inviabilize a estrada
Alimentaçãoajuda de custo por dia de deslocamento, paga ao paciente
Pernoiteajuda de custo por diária, quando a viagem não fecha no mesmo dia
Acompanhantetransporte e ajuda de custo idênticos, com indicação médica registrada no laudo
Despesa de tratamentofora da ajuda de custo, porque consulta, exame e internação já são gratuitos

O acompanhante não é cortesia. A portaria prevê a companhia quando o paciente tem menos de 18 anos, quando tem 60 anos ou mais, quando a condição clínica impede viagem sozinho e quando o médico registra a necessidade no próprio laudo. A idade sozinha não basta para o operador da secretaria autorizar: falta o campo do laudo preenchido.

Urgência e emergência seguem caminho separado e não passam pelo TFD. Quem precisa de socorro imediato entra pela regulação de urgência, com ambulância ou remoção sanitária, e a autorização prévia do TFD serviria apenas para atrasar o atendimento.

O valor da diária varia por município e por estado, porque cada gestor local fixa a tabela dentro do próprio orçamento da saúde. A secretaria informa o número exato no balcão, e o paciente tem direito de pedir a tabela por escrito, sempre que for firmar um recibo.

 
 

II  Calendário do Dinheiro

Do laudo assinado ao dinheiro na conta, etapa por etapa

A autorização é prévia: o TFD aprovado depois da viagem feita vira negativa em boa parte das secretarias, então a ordem das etapas vale tanto quanto os documentos.

A ajuda de custo destina-se, exclusivamente, à cobertura das despesas do paciente e de seu acompanhante com alimentação e pernoite, vedado o pagamento de despesas relativas ao tratamento. (Portaria SAS/MS nº 55, de 24 de fevereiro de 1999, artigo 4º)

O percurso que a família precisa guardar:

Consulta de origemo médico do SUS conclui que o procedimento não existe na cidade e encaminha
Laudo de TFDformulário próprio preenchido e assinado pelo médico, com diagnóstico, destino e necessidade de acompanhante
Protocolo na secretariaentrega do laudo e dos documentos no setor de TFD do município
Autorizaçãoanálise do setor e emissão da autorização antes da data da viagem
Passagem e depósitoemissão do bilhete e liberação da ajuda de custo
Prestação de contasentrega dos comprovantes de comparecimento depois do retorno

O prazo de análise não é igual em todo lugar, porque o setor de TFD funciona com equipe e calendário próprios de cada município. A conversa útil no balcão pede três respostas objetivas: quantos dias úteis a análise leva, qual dia da semana a comissão se reúne e se a ajuda de custo sai em depósito ou em dinheiro na boca do caixa.

O comprovante de comparecimento é a peça que sustenta a próxima viagem. O hospital de destino carimba a declaração de atendimento, a família entrega no setor de TFD ao voltar, e a pendência desse papel bloqueia o pagamento seguinte com o tratamento já em andamento.

O dinheiro do TFD não conta como renda em cálculo nenhum. A ajuda de custo fica fora da soma que define a renda familiar por pessoa, não derruba o Bolsa Família, não afeta o Benefício de Prestação Continuada e não entra na declaração de imposto de renda.

Os documentos que o setor costuma exigir no protocolo:

Documento de identidade e CPFdo paciente e do acompanhante indicado
Cartão Nacional de Saúdeo cartão SUS do paciente, com numeração legível
Comprovante de residênciaem nome do paciente ou com declaração do responsável pela casa
Laudo de TFD assinadocom carimbo e registro no conselho do médico que encaminha
Agendamento no destinoguia de marcação da consulta, do exame ou da cirurgia
Dados bancáriosconta do paciente ou do responsável, quando a secretaria paga em depósito

Tratamento continuado muda o desenho do pedido. Sessões de quimioterapia, hemodiálise e fisioterapia cabem numa autorização única que cobre o ciclo inteiro, em vez de um protocolo por viagem, e a família economiza semanas de balcão ao pedir o período fechado logo na primeira ida.

 

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III  Testado pela redação

Os 214 quilômetros que a família de Valadares deixou de pagar

Passo 1: peça ao médico que encaminha o laudo de TFD preenchido no mesmo dia da consulta, com o campo de acompanhante marcado e o motivo clínico escrito, porque o laudo incompleto volta do setor sem análise.

Passo 2: protocole o laudo no setor de TFD da secretaria municipal antes da data marcada no destino, e saia do balcão com o protocolo anotado e o prazo de resposta informado por quem atendeu.

Passo 3: guarde a declaração de comparecimento carimbada pelo hospital de destino e entregue ao voltar, porque ela libera o pagamento da viagem seguinte.

A redação acompanhou o caso de Rosileia Martins de Souza, costureira em Governador Valadares, que autorizou o uso dos números dela. O marido, Edmar, tem indicação de sessões de hemodiálise em Belo Horizonte, a 214 quilômetros de casa, e a cidade deles não oferece o procedimento pela rede pública.

O médico do posto assinou o laudo de TFD numa quarta, com o campo de acompanhante preenchido pela condição clínica dele. Ela protocolou na secretaria na quinta de manhã, recebeu o protocolo no balcão e a resposta da comissão saiu em seis dias úteis, com autorização para o ciclo inteiro do tratamento.

As duas primeiras viagens tinham saído do bolso da casa, sem TFD, e foi a conta delas que a família levou ao balcão. Cada ida cobrava passagem dos dois, almoço fora e uma noite de pernoite, porque a sessão começava cedo demais para quem pega estrada no mesmo dia.

O que as duas viagens mensais custavam à casa, pelos valores de bilhete e de hospedagem que ela pagou:

Passagem intermunicipal, ida e volta, duas pessoasR$ 92 por viagem
Alimentação do dia, paciente e acompanhanteR$ 26 por viagem
Pernoite em quarto simples perto do hospitalR$ 70 por viagem
Custo de uma viagem com acompanhanteR$ 188
Duas viagens por mêsR$ 376 no mês
Doze meses de tratamento continuadoR$ 4.512 no ano

Com a autorização em mãos, a secretaria passou a emitir as passagens dos dois e a depositar a ajuda de custo de alimentação e de pernoite antes de cada ida. A despesa própria da casa caiu para o cafezinho da rodoviária, e a renda de costura dela deixou de cobrir estrada.

O laudo assinado numa quarta e protocolado na quinta devolveu R$ 376 por mês ao orçamento de uma casa que vive de costura; sem ele, as mesmas sessões aconteceriam do mesmo jeito, com a família pagando a viagem inteira.

A conta cresce com a distância e com a frequência: três sessões semanais, destino a 300 quilômetros e pernoite obrigatório passam de R$ 1.000 por mês, e a viagem feita antes da autorização entra por conta própria, sem reembolso retroativo em boa parte dos municípios.

Hoje: ligue para a secretaria municipal de saúde da sua cidade e pergunte o setor de TFD, o valor da diária de alimentação e o de pernoite. Três perguntas, uma ligação, nas próximas vinte e quatro horas, e o número da diária anotado no papel do encaminhamento.

"Você sabe quanto a sua cidade paga de diária de TFD por dia de viagem?"

 
 
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Quiz da edição

Segundo o texto, acima de quantos quilômetros entre o município de moradia e o de destino a alimentação e o pernoite passam a entrar no cálculo do TFD?

A30 quilômetros
B50 quilômetros
C80 quilômetros
D100 quilômetros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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